quarta-feira, 6 de abril de 2011

Comodismo é...

Por que diabos os sentimentos das pessoas vêm diminuindo?
Não é uma simples resposta, é...
Portanto, resumo esse post desde o início, a fim de deixar você pensativo em todos os motivos que podem também influenciar nisso:
o comodismo.
Ele aparece assim, de repente, sem nem avisar... e acaba se instalando.
Você, pura inocência, nem sabe como lidar. E aí vai deixando, deixando...


Eu não faço ideia porquê a porra do Google associou a minha linda palavra comodismo com a fábula "Raposa e as Uvas" de Esopo. Prossigamos.
Então a gente faz assim: no geral, comodismo vem de CÔMODO, óbvio. Algo que está acomodado (finalmente um prefixo -a que não é de negação!) é algo que se encaixou alí e agora acha que alí é o seu lugar.
Você já parou pra pensar se comodismo vier também de COMUM?
Se a resposta foi "sim", meus parabéns. Acabou de desvendar um bicho de sete cabeças: se algo que está acomodado acha que alí é o seu lugar e que, de agora em diante, isso passa a ser comum... ele REALMENTE está no seu lugar. A partir de agora, a rotina será igual, tudo não passará de um grande ciclo tedioso...
E se, além de "cômodo" e "comum", a palavra fosse uma junção desta última com ROMANTISMO?
Isso é o que geralmente tenho visto e tem chamado muito a minha atenção.
Dois casos que são muito frequentes, atualmente:

-Namoro-Quase-Eterno: nem sei se ainda podemos considerar namoro, depois de tanto tempo. Nada contra quem namore três anos pra mais (admiro e acho muito lindo), mas MUITA gente já me reclamou algo como "é, eu ainda tento buscar..." ou "acho que não conseguiria mais terminar..." ou até mesmo "...porque não me imagino mais sem ele[a]". Pelamor, desde a Pré-História, o homem é nômade. Depois que virou sedentário, surgiu a divisão pelo trabalho, as classes e o prato principal: a poligamia (aceita ainda em alguns poucos países). Esse papo de monogamia é papo furado. Ou seja, conclusão pra essa merda toda: se teu namoro já passou de 3 anos e ele[a] ainda não te traiu... ótimo. Isso é o que você acha. A realidade é que tudo caiu na rotina e não tem mais o que fazer. A busca por novos cheiros, toques, sensações em geral é o que o homem quer. E isso é comum, acredite. Questão de instinto.

-Namoro-Feriado (tem quase todo mês): uma pessoa termina com a outra e no outro dia já está morrendo de amores por outra pessoa. Isso não existe. Certamente não entrarei em detalhes quanto ao sentimento "amor", mas vou me referir dele como se soubesse e entendesse do assunto (a interpretação fica de acordo com o que cada pessoa já vivenciou). O que na verdade existe é uma atração ou paixonite. Sim, isso sim é possível. Mas não amor, amor é outra coisa. É comum namorar uma pessoa e, do nada, achar que uma outra que você conheceu hoje te abalou de uma forma inigualável.
O problema é que as pessoas insistem em confundir sentimentos (como o amor), colocando-os por cima do verdadeiro instinto. Você não se interessou (se for ele, por exemplo) pelo jeito meigo e tímido que ele fala, pelas palavras delicadas e selecionadas ou pelo carinho enorme que ele tem por ti. Você gostou do cheiro, da linha tênue do maxilar, do peitoral levemente estufado, dos cabelos enegrecidos e sedosos... enfim, o que lhe atraiu foram poucas de muitas outras sensações do próprio corpo "necessitado" (no sentido de sempre querer buscar novas sensações) e que desde muuuuito tempo foi assim.
O outro problema é que, como você acha que já está amando, resolve pedir a pessoa em namoro. E aí que tá a merda: você acha que ama, quando na verdade é só uma explosão de sensações que acabam mexendo com o seu psicológico. E a pessoa aceita, por comodismo: pra ela, tanto faz como tanto fez... um namoro sempre é "bem vindo" para a maioria das pessoas.
E os sentimentos, como ficam?
Pois é, os sentimentos que se fodam.

Aí fica aquela coisa meio desvalorizada... ninguém sabe mais amar, todo mundo gosta de todo mundo e ainda por cima acha que, mesmo se enganando dessa forma, todos saem da história muito felizes.
Antes que pense algo... não, eu não passei por isso em momento algum na minha vida e já namorei. Muito menos quero colocar só a culpa no instinto... talvez você me julgue agora por eu não saber administrar os meus sentimentos...
...mesmo insistindo que não ocorrera comigo.
Apenas fiz o post porque, realmente, como nunca antes, tenho tido mais amigos reclamando desse tipo de coisa e isso me fez pensar.

Ah!
Para quem ainda não entendeu, a palavra era COMUM + ROMANTISMO = COMODISMO.
E se a resposta da segunda pergunta desse post imbecil é "não"... aperte alt + f4 e pense você também sobre a palavra.

Não se acomode como as pessoas comuns que você e eu já conhecemos.
Não vá deixando...deixando...

sábado, 19 de março de 2011

Beijo! Tchau. Tu, tu, tu...

Finalmente: atendimentos e despedidas no telefone.
Sou campeã de tais fenômenos.
Assim, eu simplesmente odeio telefone. É pior que o bicho papão.
Dá medo olhar aquele aparelho comprido, alguns ainda com antena, outros não. Cheio de botões feito um celular, o botão de liga é verdinho e o de desliga é vermelho.
Números e mais números. E daqui a pouco ele cantarola aquele toque polifônico irritante e que infelizmente você tem que atender.
Vai que é urgência - afinal, seus pais sempre lhe ensinaram assim.

Eu ainda não sei com que objetivo eu tô escrevendo isso.
Ok, na verdade eu tinha um objetivo, mas eu deixei ele pra trás. Assim como muitas coisas na vida que você também vai deixar.
E eu tô aqui perdendo meu tempo porque eu to sem sono. A porca gorda aqui foi dormir às 13:30 e colocou o celular pra despertar às 14:30, e acordou às 17:15. Com a cara inchada, já diria um professor meu.
Só um lembrete: eu AMO abacate com todas as minhas forças.
Prosseguimos, então, primeiramente com três tipos de atendimentos mais comuns:

- "Alô? Muuuito bom dia! Aqui quem fala é..."
Educados:
sempre tem um maldito desses que enche o teu ser/espírito. Não sei se de amor ou de ódio.
Amor porque... bom, é sempre muito tri receber um bom dia, por mais que tu não conheça a pessoa. Já recebi bom dia, boa tarde e boa noite de desconhecidos (e não era um vendedor) e me senti o máximo. Parece que é conhecido (de anos), embora não seja.
Ódio porque o teu dia foi uma merda, tu fez tudo errado, se atrasou pro encontro, esqueceu o que tinha de levar e ainda não pagou o que faltava. Você está devendo desde a semana retrasada. E aí alguém vem com aquela frase ali, como se o teu dia realmente estivesse sendo bom. Ou como se a pessoa do telefone quisesse invejar porque o dia dela foi espetacular, do contrário do teu que não chegou nem perto de um espetáculo. Só se for de palhaçada.

- "Alô? Por gentileza, eu gostaria de falar com a responsável pela conta do aparelho tal. Ela se encontra?"
Telemarketing: eles não gostam de fazer esse serviço e você muito menos de recebê-lo.
Assim, eu mandei um currículo pra isso aí, como se eu realmente fosse gostar (já que odeio falar ao telefone). O problema não é o trabalho, é medo do aparelho mesmo. Ok, mentira, mais tarde eu falo realmente qual o problema. Mas eu adoraria bater um papo com alguém que eu ligasse lá do serviço: primeiro porque, não sei como, o pessoal reconhece a minha voz de longe *ironia* e segundo... colocar o papo em dia é saudável!
"Por gentileza, eu gostaria de falar com..."
"É tu, cara?"
"Sim! Tô trabalhando em Telemarketing... foi o que sobrou pra mim. E tu? Foi na festa que teve no sábado do nosso amigão lá?"
"Ah... sim! Neeem te preocupa: não perdeu nada... o cara tá tri bem de vida e tava lá, se gabando pros outros..."
"Não acredito... bem tipinho dele mesmo, né?"

- "Alô? Eu gostaria de falar com a -PESSOA DE NOME INCOMUM-. Como ela não tá? O telefone não é 33696969? Ué, mas ela me deu esse número. Foi engano, tchau."
Engano:
todos cometem, mas nem sempre se dão conta que o engano fora do simples errar de número na hora da discagem afobada.
Como eu tenho pavor de telefone, difícil eu ligar errado. É claro que sempre tem uma primeira vez... ao menos, antes de desligar, pedi muitas desculpas.
Tentei de novo e deu certo.
Eu tinha trocado um 6 por um 9.
Aliás, sugestivo o telefone do exemplo, não?
E não tentem...

E agora apresentamos os três tipos mais comuns de despedidas no telefone:

- "Pô cara, mas é isso aí, tenta fazer aquilo que eu te falei. Não. Sim, sim, isso mesmo. Pega a rua tal, entra na terceira casa e depois de lá tu pode pegar o ônibus tal. Não, não tem uma parada na frente, tu tem que caminhar no mínimo uns 2 quilômetros... ah! Para! Não reclama!...iiiih, já vai? Mas você ainda nem me contou aquilo. Deixar para amanhã? Putz, amanhã não sei se vai dar, me conta agora, bem rapidinho... é, eu tenho aquele curso e depois eu chego em casa e tenho a tarde livr.. ah, não, eu tenho médico. Mas o que aconteceu? Bá...que péssima. Ah, sim, claro...você tá indo dormir... mas tu entendeu o caminho? É bem simples né... ô, espera. Não desliga ainda. Assim, quando tu chegar na esquina, me dá um toque que eu levo o celular pra aula e deixo no silencioso, mas sempre tô com ele no bolso vendo se tem mensagem ou se tá perto do horário de ir pra casa. O quê? Não entendi. Ah, eu seeeei. Relaxa cara, você tá muito estressado. A noite é uma criança. Já tentou fazer acunpultura? Dizem que é muito bom, dá uns estralinhos na coluna quando pega a agulha. Ah, sei...tem que acordar cedo. Beleza. Até a próxima, mas...hein, sério, se precisar me liga mesmo, estou a disposição. Tchaaaaaau. Fica bem. Terceira casa, viu?"
NUNCA-DESLIGA: Sinceramente? Cansei de escrever tudo isso seguido como se fosse uma frasezona só. Esse é o cara que se pudesse investir naquele Plano Infinity da TIM e pagar cinquenta centavos a ligação pra falar eternidades, ele falaria. Tem assunto de sooooobra, normalmente é uma pessoa bem -e bota BEM- informada (ah, esqueci de que pode ser também informada de uma cultura meramente inútil).

- "AAAAH NÃO, MÔR. Desliga tu primeiro. Ai, eu não gosto porque daí parece que eu to desligando na tua cara. Vamos fazer o seguinte então, bebê: no três, tá? Um...dois...três! Beeeijo! Ai, tu nunca esquece disso né? Tá bom, tá bom, eu vou fazer de novo pra ti. Mas tem que comer tudiiiinho pra ganhar muito mais! Eu sei que você gosta, meu lindinho. Também te amo. No três, de novo? Ah, você faz eu me perder. Contigo eu tenho vontade de contar até mil (nota: BREGA.)! Um...dois...ah! como você é engraçadinho, né? Depois eu acho até que dá vontade de desligar na cara mesmo, bobão. Para com isso, amanhã a gente resolve, temos tempo. Foi? Um... dois... três! Tchau! Te amo muito, não esquece! Beijão! Beijão na boca! Seu lindo! Diz tchau logo! Tá! Tchau! Beijo! Boa noite! Te amo também! Tchaaaaau..."
APAIXONADO-RETARDADO: Nada contra, porque até eu tenho essa mania abobada. Só que é muito engraçado que a gente fala tuuuudo isso e, no final, era só pra gente desligar o telefone. Um tchau é suficiente. E essa contagem idiota até o três quase nunca funciona (não comigo!).
Nós tentamos nos enrolar...enrolar a pessoa do outro lado da linha... prolongando o máximo a despedida...
e conseguimos, né?

- "Então faz isso dessa forma, talvez encontre o que tu queira. Não, eu disse pra ela pegar dois, um pra mim e pra você, mas não sei se ela vai conseguir. É difícil... mas pode dar. Vamos torcer que sim... E se tu já tiver um, me avisa antes. (tu, tu, tu, tu....)"
DESLIGA-NA-CARA: Só pra caso alguém não tenha entendido, os tu-tu-tu's entre parênteses significa a pessoa desligando o aparelho de telefone.
Geeente, isso é um problemão sério! O meu pai sofre disso, é a coisa mais triste que poderia ter conhecido de mania dos meus pais. Tu tá alí, falando com a pessoa numa boa e de repente tu crente de que caiu a ligação porque tava chovendo lá ou qualquer coisa do gênero...mas nããão. A pessoa já falou tudo o que tinha pra falar e clica na porcaria do botão vermelho apavorada, porque não sabe dizer um tchau decentemente.
Quem não é acostumado com esse tipo, sempre acha que é falta de educação...
Acontece.

Cara, telefone é uma incógnita.
Aliás...
O problema citado na parte do Telemarketing é que eu odeio ficar sem assunto no telefone. E pessoalmente também. Bate um pavor tremendo, vontade de sair correndo e gritar qualquer coisa para que a pessoa responda. É o mesmo que fazer uma pergunta, sem ela ser respondida. É algo tipo... meio que... no vácuo, entende?
O pior mesmo é quando tu repete a pergunta... e continua aquele silêncio constrangedor, sabe?
Não que eu já não tenha feito o mesmo com uma pessoa, às vezes dá vergonha de responder, sei lá, mas ao menos precisamos de uma resposta convicta pra termos certeza de que a pessoa ainda se encontra na linha, né??
...ei.
Alô?

sexta-feira, 18 de março de 2011

A sweet vision...

Quadro da situação:
O paciente encontra-se em estado grave.
Olheiras profundas de uma provável noite maldormida.
O estômago parece cheio. A boca está suja de, além de sangue, muito vômito de uma comida suspeita (por muitos).
Há evidências claras de tentativas de suicídio com objetos pontiagudos como faca, estilete ou até mesmo uma furadeira.
Recados espalhados pelo quarto, em folhas de ofício rabiscadas, alertando seriamente: "eu tentei, mas não deu certo dessa vez, assim como na outra e o serão nas próximas...".
...
O real quadro da situação?
Uma mesa grande e retangular.
Uma pessoa ferida, com uma faca na mão recém saída de batalha, de um lado da mesa.
Curativos do outro lado da mesa.
Pessoa se esticando ao máximo pra alcançar os curativos para amenizar o ferimento inicial.
Faca da mão da pessoa é a tal famosa "faca-de-dois-gumes".
Logo, quanto maior o esforço de aproximação...
...maior o sofrimento.


Uma boa tarde a todos.
Ah, talvez nem tão boa assim! mas olhe que maldito post que de início já me vem com gente morrendo, gente triste, gente que precisa de outras gentes.
Tem mais essa chuva dos diabos que não para de cair. Ao menos pra alguma coisa serve: lembrando lágrimas derramadas ou algo do tipo.
Muito bem, vocês são sobreviventes de mais uma sangrenta (ou chorosa) guerra. E não se preocupe, os que ficaram no caminho não foram em vão. Ou foram, já que ninguém realmente lembra o nome de nenhum.
Pessoa número um.
Pessoa número dois.
Pessoa número três.
Um trio é o suficiente.
A vida não vai permitir além disso.
Chega de planos mirabolantes... aqui, é proibido fumar.
Largue o seu cigarro ex-tragado e assista à entrevista decentemente, sem se preocupar com alguma fumaça ou cheiro de roupa velha.

O reporter chega de fininho, como quem não quer nada mas louco pra publicar a porra de uma reportagem gigante no jornal:

"O que você verdadeiramente quer?"

"Sei lá. No momento, eu gostaria de um doce. Açúcar, assim (movimenta as mãos). Pra adocicar a minha vida."

O repórter apresenta uma bandeja com uma variedade imensa de doces.

"E então? Poderia responder à pergunta?"

"Obrigad*. (comendo o doce, respirando fundo, responde) Primeiramente, gostaria de dizer alô para a minha querida mamãe, já um pouco velha, mas acho que ainda me escuta e entende. Oi mamãe. E para o meu paizão também, graaaande pai, sempre me ajudando em tudo, coroa de bom coração. Eaí pai."

O repórter, já impaciente, troca o microfone de mão, enquanto o camera-man balbucia algumas palavras sem sentido, resmungando.

"O que eu verdadeiramente quero, ninguém verdadeiramente pode me dar..."

O repórter muito curioso, impaciente e já excitado com a resposta, procura explorar o máximo do psicológico da pessoa.

"E o que seria isso que ninguém pode lhe dar?"

"...e ninguém 'mentirosamente' pode me dar, também. Tenho um comentário a fazer, antes de mais nada: as pessoas têm se tornado muito previsíveis. Eu já li isso em algum lugar, mas eu faço questão de eu mesm* dizer. Veja bem, eu não quero te tirar para diário ou caderno de desabafo, mas eu tô precisando...cê me entende?"

O repórter pega um banco confortável e se senta, olhando o camera-man ainda em pé. Esse último faz o mesmo, acompanhando e sentando ao lado, ligeiramente fazendo um rápido BIP! com a câmera, desligando-a.

"Porra, bem que podia ter um chimarrão aqui, né? Mas agora não importa... antes que me perguntem: previsibilidade é uma coisa muito fácil de deduzir. Eu não gostaria de parecer nenhum super-heroi contando esse tipo de coisa, mas é que isso tem me assustado muito. Imagina você deduzir que certo horário, logo que você fez tal coisa, você deduz que vai morrer, porque tá na cara, e aí morre mesmo?"

"Talvez já fosse a hora..."

"...QUE HORA O QUE! Eu tenho muitos anos de vida ainda. Mais que felino e menos que Deus, se o acreditam em ambos os substantivos."

"É, É!" Concorda o camera-man, achando que qualquer palavra dita pela pessoa pudesse fazer alguma lógica.

"É claro que eu deduzi que eu não aguentaria e que eu chegaria a um fim trágico, mas não imaginei que fosse a tanto (passa os dedos suavemente pelo pescoço, sentindo o curativo de hospital)... Nunca brinquei com esse tipo de coisa. Aliás, isso não é brincadeira, eu sei. Eu só sei que é um desejo incontrolável. Já me diziam nos programas antigos de televisão: crianças, não tentem isso em casa. Desculpa mamãe, desculpa pai.

O camera-man já está lacrimejando, um homem batalhador, sensível. Nunca havia dado um stop em seu trabalho para perceber o que realmente acontece por fora das câmeras. E agora estava alí, ouvindo o depoimento de um suicída, não sabia se admirava ou se temia.
O repórter está muito pensativo, cada palavra ele selecionaria para depois passar pro jornalista que colocaria a tão esperada entrevista e tudo no jornal, tim-tim por tim-tim.

"Mas então... qual foi o motivo de tudo isso?"

"Não é só um motivo. Uma pessoa nunca tenta essas coisas graças a um motivo só. Imagina, se fosse assim, já teria muita gente se atirando pelas janelas, se cortando, explodindo a própria casa a cada segundo. Quantos problemas que as pessoas não enfrentam no dia a dia e ainda assim estão vivas, sem pular janelas, sem um corte visível ou marca e ainda morando na sua casa? É como uma bola de neve... quando ela começa a surgir, vai arrastando umonte de coisa e leva tudo. E o efeito é cumulativo. Nesse caso, não começou com uma bola de neve pequenininha e muito menos foi crescendo gradativamente. O problema já veio grande. Tipo uma pedra, um pedregulho (e as mãos faziam movimentos de como se fosse a pedra mais gigante do universo). E eu não consegui, infelizmente, tirar do meu caminho. Admito que tentei até chutar, mas machuquei o pé. E daí que veio o meu primeiro machucado. Quando eu fiquei de um lado da mesa, tentando alcançar o outro para me curar desse primeiro ferimento, já havia batalhado demais. Eu estava desgastad*. Cansad*. Ainda assim, com persistência e teimosia, é claro, porque as pessoas nunca acreditaram em mim nesse tipo de coisa, forcei a barra, querendo ir até o final..."

O repórter suspira, olhando o outro curativo gigante perto da costela da pessoa, sentindo a faca entrando vagarosamente... ele volta o olhar rapidamente à pessoa, sacudindo a cabeça e ouvindo a história.

"...Mas o outro lado da mesa também não me ajudou. O caminho que eu tive que percorrer com o braço, e ele não é tão curtinho não, ó (estica os dois braços) foi longo demais. Eu deixei escapar oportunidades reais, para me iludir com um pequeno curativo que tinha de fazer porque machucava. Minto, incomodava. Sabe aquela coceira de sempre que você tem e nunca consegue se livrar... e parece que, quanto menos você pensa nela, mais ela coça? Era mais ou menos isso, mas era dor. Vocês já devem saber soletrar. Dê-ô-érre. Dolorido, assim mesmo. E sangrou, nossa. Eu nunca tinha visto tanto sangue na minha vida. Acho que sou um pouco masoquista, mas não contem para ninguém, evitem botar isso no jornal... (risada tímida)
Só conto tudo isso pra vocês porque... bom, porque faz parte da vida. Tem gente que passa por coisa pior, que talvez não conte por não ter condições ou por não admitir lutar por aquilo que quer...(faz uma pausa longa)
...por mais impossível que isso pareça."


O repórter se levanta, tão quieto quanto o camera-man que se levanta também, e ambos vão para o centro de negócios.

"Uma última coisa! Obrigad* pelo doce, estava maravilhoso. As pessoas deveriam ingerir mais glicose quando esse tipo de situação acontecesse com elas. Adocica mesmo a vida(sorrindo)!"

Lá no centro de negócios, as pessoas trabalhavam incessavelmente. Era uma correria louca para todo o lado, telefones tocando sem parar, documentos voltavam, papéis eram rasgados, nomes eram gritados pra todo o lado em busca de mais materiais, de mais dinheiro, de um capitalismo talvez não tão feliz assim.
O repórter olha para o câmera-man, já desanimado ao sentir aquela euforia das pessoas em relação aos negócios e exausto com o mesmo ambiente diário para trabalho.
Em seguida, o jornalista se aproxima com um bloco de papel na mão esquerda e uma caneta preta na mão direita.

"E aí, novidades? Me conta, como foi. Tudinho.(abre o bloco e tira a tampa da caneta)"

"Eu não fiz entrevista alguma...foi mal aí. Não deu tempo, a tarde passou rápida e a pessoa não teve condições de responder. Sabe como é que é, tem algumas pessoas que preferem não admitir lutar pelo que desejam, e aí deu nisso."

"Hummm (suspeitando). Tudo bem. Só que lhe digo uma coisa...se você não conseguir uma última entrevista, você está fora daqui. Porque tem um lá que conseguiu hoje uma muito boa, algo com sexo e tal, isso chama a atenção. Morte ou suicídio também. Trata de dar um jeito aí. Tchau."

O jornalista dá meia volta e retorna ao seu escritório, pensando em outros planos para escrever alguma notícia interessante.
O camera-man fica impressionado com a reação deste, afinal, a dupla era uma das melhores que trabalhava ali sempre se esforçando e muito empenhada, mas dessa vez, somente nessa situação, chegou ao ponto do camera-man ouvir o BIP! da câmera, ouvir o chefe reclamar e quem sabe quando não chegasse em casa, ligasse a TV para ouvir mais desgraças no mundo.
E o repórter... bom, ele foi quem mais aprendeu com a história. Ele tirou suas próprias conclusões, mas não deu meia volta para voltar a trabalhar, muito menos queria voltar pra casa para ouvir a mulher reclamar que hoje não viu nenhuma entrevista na TV dele...
Ele queria muito mais.
Ele andou exatamente duas quadras depois do centro de negócios e entrou na segunda casa de coloração verde à esquerda do orelhão.
Era uma doceria.

quarta-feira, 23 de fevereiro de 2011

Triste Desaniversário

Você não precisa gostar de completar tantos anos de vida.
Comemorar... por quê?
Ninguém sabe exatamente com que fim, mas todos o fazem.
Uns de formas mais simples, outros de formas mais complexas (leia-se muito cara).
O importante é que você está ficando mais velho.
E isso é o suficiente para deprimí-lo?

São 6 bilhões de pessoas no mundo e você é apenas mais uma sendo felicitada por sobreviver a essa imensidão.
Quem sabe um dia o mundo exploda.
Mas enquanto ele existe, você existe.
E se você existe, agradeça por isso.
Pense e agradeça pelo fato de você não estar no meio de muitas bombas, correndo o risco de perder a vida em um instante.
É claro que você corre o risco de ser assaltado, e morrer por aí.
Não é metendo medo.
É a realidade.
A triste, mas real.
Porém, todos nós corremos esse risco. É, você não está sozinho.
Não? Não.
Bem capaz.
Por mais insignificante que pareça pra muitos, até um cachorro se preocupa com você. O dono que dá a água fresca, a comida cara, o banho, o passeio... ele sente falta.
Interesseiro de uma figa.
Mas a morte é algo que ninguém sabe de nada, e todo mundo está sujeito a encará-la.
E eu já falei sobre o desconhecido num outro post. Preguiçoso de merda, vá ler os outros se estiver mesmo interessado nesse monte de palavras digitadas sem rumo.
É difícil dizer que não se tem medo. Medo tem. O que você pensa que acha que não tem é medo, mas no fundo você está é amedrontado que alguém descubra que você o tenha.
Peço desculpas pela confusão.
Fiquei assustada de como o tempo passa e como as coisas boas vão ficando pra trás.
Simplesmente as esquecemos, como o almoço de ontem.
Eu não lembro o que comi ontem.
Não sei porque, mas me vieram almôndegas gigantes na cabeça. E faz meses que não como almôndegas.
Desejo.
Olho grande, isso sim.
Aí você fica pensando que nos primeiros aniversários, você colocava trilhões de balões espalhados pra criançada e que no final da festinha não sobrava quase nenhum, porque ou eram pisoteados ou levavam pra casa pra murcharem num maldito canto.
Fru-fruzada: docinhos, salgadinhos, copinhos, garfinhos, brinquedinhos, presentinhos...e um bolo colossal só pra cantar parabéns com uma vela.
Isso vai até o "bolão" ficar com umas dez velas.
Daí em diante, é mais despreocupado. Largado. Pra quê todos aqueles balões se nem crianças mais tem?
Agora são adolescentes, são da tecnologia. Do emi éssi êni, do iogurti. Do clica-aqui-e-reflete-lá.
Só uma lembrancinha.
A variedade de comidas aumenta, mas nem tanto.
Novas bebidas surgem.
Álcool existe, agora. E depois que chega, ele fica até a última vela, com a desculpa de que te deixa mais desinibido.
Festa de 15 para as garotas. Hoje em dia, fiquei sabendo que para garotos também!
Uma caralhada de dinheiro. Presentão.
Dos 18~30, acredito que muda tudo.
Vai pro prático, simples e rápido: comemoração numa casa noturna, pizzaria ou o típico "churrasquinho". Noites longas.
Acabou.
Acabou o dinheiro para os presentes.
E os filhos da puta arranjam uns trocados pra comprarem um pinto de borracha nos 24 anos.

Passou tudo muito rápido, e estamos recém no trinta, ainda há muita vida pela frente.
Parabéns aos que terão filhos e que deixaram seu legado da espécie no mundo.
Que exploda de vez, mesmo.
Aos "Brás-Cubanos": "Não tive filhos, não transmiti a nenhuma criatura o legado da miséria humana."
Muito bonito isso. Poético. Recomendo o livro, aliás.
Agora é só um abraço, um telefonema, um e-mail, um SMS.
Cadê todas as crianças?
São seus filhos, quem sabe vem aí um neto.
É só ter força de vontade e você poderá ainda vê-los enquanto estiver vivo.
Muita academia e alimentação saudável.
De vez em quando um churrasco aqui, só pra dizer que você ainda existe.

Minhas grandiosas palmas para uma sobrevivente de cinquenta e cinco anos, nova, com saúde física ótima, mas mental não tão perfeita assim. Quase querendo voltar à infância.
Não tem problema, o amor de filho não se importa com defeitos assim. E isso não é defeito, é apenas um pequeno problema, incomparável a tantos outros que conhecemos mundo afora e preferimos não aceitá-los.
A barra é pesada e tenho certeza que um ano a mais é menos doloroso do que um ataque cardíaco, um acidente de carro ou moto, uma facada, um estupro, um tiro no peito, um erro cirúrgico, um afogamento...
Sem mais desgraças.
É só o homem contra a natureza...
é só o homem contra o próprio homem.
Estamos acostumados.

Independente se há ou não alguém dentre 6 bilhões que se importe com a sua presença, comemore a sua vitória por esse caminho infernal - erga um copo da água, engula seu antidepressivo e feche os olhos. Boa noite.

Ele & Ela

Ninguém nunca pensou que um dia os papéis pudessem ser invertidos?
Leia e tire suas próprias conclusões.


Ele é baixinho e mais novo.
Ela mede 1,75 e tem 24 anos.
Ele é educado.
Ela fala palavrão.
Ele abraça e dá um beijo na bochecha.
Ela levanta o braço e acena de longe.
Ele calça 37.
Ela calça 40.
Ele é hipertenso.
Ela é diabética.
Ele usa regata justa de tons claros.
Ela usa camisa larga de tons escuros.
Ele chora.
Ela sorri.
Ele conta piadas.
Ela é irônica.
Ele crê em Deus.
Ela crê nas pessoas que lhe fazem bem.
Ele tem os dentes retinhos no lugar.
Ela nunca usou aparelho, mas precisa.
Ele faz natação e tira primeiro lugar.
Ela queima qualquer objeto em casa sem que ninguém veja.
Ele faz academia e mantém uma alimentação saudável.
Ela dorme o dia inteiro e comeu lasanha ontem.
Ele passa um fim de semana na casa dos amigos.
Ela viaja um fim de semana a trabalho.
Ele é compreensivo.
Ela é feminista.
Ele é sincero com palavras.
Ela é mentirosa com gestos.
Ele pega só uma, no máximo duas.
Ela participa da competição de quem pega mais.
Ele é cuidadoso e sempre tenta ajudar os outros.
Ela é debochada e ri das desgraças dos outros.
Ele desenha muito bem.
Ela não consegue fazer uma rubrica direito.
Ele gospe.
Ela cospe.
Ele odeia se apresentar em público.
Ela ama chamar a atenção e ser o centro das atenções numa apresentação.
Ele não torce pra nenhum time de futebol.
Ela é torcedora quase fanática.
Ele joga futebol no videogame.
Ela assiste ao jogo de futebol na TV.
Ele arruma a casa, lava a louça e varre os quartos.
Ela chega do trabalho cansada, joga os tênis pela sala e se atira no sofá.
Ele brinca.
Ela manipula.
Ele conta de 0 a dez.
Ela conta de dez a 0.
Ele gosta de salada de maionese.
Ela gosta de qualquer tipo de salada, menos salada de maionese.
Ele sente.
Ela pensa.
Ele é virgem.
Ela usa camisinha.
Ele quer amor.
Ela quer sexo.

Ele é nerd, usa óculos e, enquanto não a conhece, conversa por meio da internet.
Ela também.

sexta-feira, 4 de fevereiro de 2011

Aqui, nessa mesa de bar...

Garçom.
Profissão que sei lá quanto deve ganhar. Não muito, pelo que já ouvi.
Mas é divertido, admite aí.

Claro que eu tenho uma leve pena dele. Ele é o poderoso, o paciente, o tranquilo e ao mesmo tempo o fingidor.



Resolvi fazer um post diferente (já com a ideia dos próximos na cabeça - "despedidas no telefone", "ele&ela" e "o cego"). Talvez não muito grande pra evitar cansaço, compensando o anterior que foi um texto bem longo.
Cansativo nem digo, porque minhas leituras são (e pretendo continuar assim) fáceis demais. Qualquer um lê, e entende.
OK, nem todo mundo lê. Nem entende.

Assim, tenho pena porque trabalhar nesse calor é foda.
Ouvi essa frase hoje e você vai entender porque é foda:
"Porto Alegre faz trinta graus na sombra e trinta e cinco no sol."

Não me pergunte. Eu também não entendi.
Foi uma cobradora de ônibus quem disse isso... mas não menospreze quaisquer profissão. Ela era mulher.
Era não, é.

E preste atenção sempre no que eu digo; elas ainda vão dominar o mundo.

Viraremos lésbicas e o mundo vai parar de procriar.
Merda.

O poder do garçom consiste no "mini" ou leve flerte com o olhar.
Adoro isso.
É interessante porque ele tá no trabalho dele e ele, na verdade, não pode fazer absolutamente nada.
Odeio isso.
Já encontrei muitos garçons (é essa a porra do plural?) bonitos, charmosos e atraentes (destaque aqui para a Grelhattus, uma galeteria onde, além deles serem tudo isso, são supereducados e calmos) e nenhum deles vai poder ser meu namorado um dia. Ou talvez sim. Não crio tantas esperanças, o flerte teria que ser bom pra cacete.
A paciência, grandiosa e exuberante, vem sei lá de onde. Eu já sou bem estouradinha, daí tu imagina um deles atendendo uma cliente chata como eu.
Existe uma linha tênue para a diferenciação de estouradinha ou chata para nojenta ou fresca.
Eu como de tudo.
Menos salada de maionese. Trauma dos meus dez, onze ou doze anos de idade que eu vomitei essa porcaria quatro vezes no ônibus.
Graças a Deus que eu não traumatizei com arroz. Porque saiu de mim muito disso também.
A tranquilidade é companheira da paciência. Acho que no momento que tu é bem paciente, tu acaba se tornando uma pessoa tranquila. Do tipo que vai até a mesa, leva o cardápio. Volta. Leva o bloquinho e começa a anotar bem devagarzinho todos aqueles mínimos detalhes:
Pra mim, um rodízio disso e daquilo.
E uma Coca-Cola bem gelada, sem gelo nem limão.
Porque Coca-Cola com limão é Pepsi Twist.
E Coca-Cola sem gelo é pela minha dor de garganta.

Não vamos ser hipócritas.
Quem não sabe que o garçom é o cara mais paciente e tudo de bom que já citamos aí... mas, no fundo, beeeem lá no fundo (infelizmente, o buraco é grande) ele é um completo fingidor.
Ele quer mais é que tu coma a primeira carne envenenada que ele tentou colocar entre os temperos dos Cheff's pra tu pagar a porra do rodízio de galetos e que ainda deixe os 10% pago.
10% não é muito caro.
Só que, numa galeteria como a Grelhattus, 100 reais vai facinho.
Acrescenta mais dez aí. É a porcaria dos dez por cento.
Mas pensa bem... releia o post (ou apenas o parágrafo acima) e veja por tudo o que ele passa.
Não é muito.
Pra ele, é muito.

Ele tem puta vontade é de arrancar aquele avental, a roupa engomadinha ou até mesmo o conhecido terno-e-gravata e ir jantar em algum lugar por aí.
Quem sabe num xis de esquina, onde não tenha um garçom no qual ele possa se enxergar.
Profissões entre profissões:
a maioria busca esconder uma a outra.
De acordo com a sociedade...
a melhor é ser Médico, mesmo.

E tu já pensou por tudo que um médico passa?
Pare.
Pense.
...
Respire, é claro.
Hospitais fedem.

Prefiro ficar na minha mesa do canto, número 14, sentindo o último gole da Coca-Cola quase quente rasgar a garganta.
E, obviamente, sem deixar de observar o movimento e esperar o garçom vir me flertar.

segunda-feira, 31 de janeiro de 2011

Eternas três horas...

Três horas. Cento e oitenta minutos. Dez mil e oitocentos segundos.
Os milésimos tu faz uma regra de três e descobre.
Esse foi o maior tempo que meu pai já fez de viagem, até onde sei.
Porque caminho da praia todo mundo (acha que) conhece.
Ontem não foi bem assim.
Cinquenta e poucos quilômetros a mais.
Não tem problema.
Sobrevivi mesmo.


O terror acontece quando a gente menos espera. A gente tá cansado de olhar pro lado e perceber que é tudo sempre a mesma coisa.
Vou explicando melhor com o decorrer das palavras.
Uma hora você nota que, pela mesma estrada, as árvores são as mesmas, aquele buraco nunca vai ser tapado, o sol sempre vai estar se pondo por alí, o túnel verde é um túnel meio cheio-de-brechas mas sempre vai ser o túnel...
Difícil quando você não sabe explicar o porque de todas essas coisas estarem alí: elas simplesmente estão.
E mais difícil ainda quando você não sabe explicar que não sabe ler placas.
Eu ainda não tenho a minha carteira de motorista.
É...
ainda.
E nem por isso vou deixar de ler as placas.
Aprendi assim.
E assim que eu vou fazer.
Trate de não deixar de lê-las também.
O fato de você não ler as placas leva você a um lugar muito óbvio: o desconhecido.
Aposto que muitos retorceram a boca só de falar a palavra. É comum, não se preocupe.
O desconhecido sempre assusta maioria. Tem gente que tem medo do novo, do arriscado, do diferente.
Pois saiba que eu nunca tive medo do desconhecido.
E é claro que o que eu disse é mentira.
Só que tem uma coisa que é certa: com o tempo, você aprende a conviver, por mais que não goste do desconhecido. Entende que cada dia que passa, é um dia diferente, mesmo que você faça as mesmas coisas do dia anterior. Aí, o desconhecido acaba se tornando comum, habitual...
Veja bem.
Trocar a direita pela esquerda pode dizer muito.
Prestem atenção, mulheres. Vocês só tem a porra do bom achômetro (que muitas vezes dá certo, diga-se de passagem!)... senso de direção, que é bom, nada.
E foi comprovado.

Ontem meu pai trocou a direita que dizia FREEWAY, pela esquerda que dizia SANTO ANTÔNIO DA PATRULHA.
Veja bem MESMO.
São dois caminhos totalmente distintos.
Homem não tem que achar merda nenhuma. Tem é que ter convicção. Ele não fez o retorno porque ACHAVA que pela FREEWAY voltaria para a praia.
Resultado?
Merda.
E das bem fedidas.
Eternas três horas de viagem no carro, em plena escuridão das 21:25 até 00:25.
Na real, era 00:45. Vinte minutinhos já em Porto Alegre, por isso não contam.

Devo ressaltar aqui duas partes das mais tenebrosas da viagem, porque o resto foi só uma estrada cheia de pequenas curvas que praticamente obrigavam a velocidade entre sessenta a oitenta.
A primeira:
Depois de uma (ao menos aparentava) rótula, pegamos a estrada do meio.
Meu pai involuntariamente parou.
Depois que olhei pra frente que entendi - a estrada estava deserta e o escuro tomava conta infinitamente dela. Brilhavam apenas aquelas pedrinhas (hoje retruco o que dizia no passado, de que elas sempre foram inúteis de dia e eu nunca entendia o porquê delas ali... agora eu agradeço por existirem!) formando a beira da estrada com a intensidade refletida da luz dos faróis.
Beira da estrada não é suficiente.
Tanto que não foi suficiente que meu pai parou o carro e saiu da estrada, pensando em retornar.
Logo veio um carro pela mesma estrada que a nossa.
Ele o observou e sem pensar muito (de novo...) acelerou. Se ela não tivesse um fim, infinitamente andaríamos por ela. Ou até a gasolina acabar.
Sorte.
Não acabou.

A segunda:
Três caminhos. Uma saída.
Qual você escolheria?
O carro novamente parou. A estrada da esquerda era contra-mão... nesse mesmo momento em que decidíamos com a sensação de pavor no seu ápice, um carro vai por ela e passa pela gente.
A estrada em frente tinha uma placa com um homenzinho preto que tipo capinava em grama nenhuma. (Era aquelas de OBRAS, sabe?)
A da direita fazia uma curva muito acentuada, um tipo de retorno.
Tudo desconhecido e MUITO escuro.
Voltamos ao achômetro e senso de direção. Lembrando que mulher tem o primeiro e o homem o segundo.
"Eu acho que é pela direita. Tem muita luz pra lá, parece cidade. Deve ter algo." - Eu digo com o meu achômetro que muitas vezes me levou a muitos lugares.
"Que cidade o quê. Só por luz não existe, não é!" - Meu pai retruca com o carro ainda parado, mas ligado.
Assim que ele olha pelo retrovisor a luz de um carro vindo atrás, ele vai pro lado e o carro segue pelo caminho da direita, fazendo a curva assustadora.
Meu pai não perde tempo e segue junto.
Afinal, tem luz.
Se tem luz, tem cidade.
Acredite, isso funcionou.
E sempre funciona.
Depende da situação, é claro.
Após alguns minutos de curva e ao chegar a mais uma estrada retilínea...
Esteio.
E finalmente um posto de gasolina com pessoas, movimento, carros, população.
Cidade.
Casas.
A minha casa.
Nunca precisei tanto dela como naquele momento. Tanto precisei que liguei para o 190 (só agora, sim. simplesmente porque na estrada, que era tão escura, e tinha tanto verde e mato que nem sinal tinha!) e pedi ajuda.
"Bê érre cento e dezesseis. Quilômetro duzentos e cinquenta e seis. Eu quero chegar em Porto Alegre, como eu faço?"
"Você está em Esteio ou Gravataí?"
"Eu não sei de mais nada, já li tanta placa. Acho, não, não acho não, tenho quase certeza, Esteio."
"Continua seguindo reto que vai dar em Porto Alegre, é garantido e não tem como pegar outros lados."
"Tô com medo. Acabamos de parar num posto que meu pai desceu do carro e foi perguntar onde estamos e o que fazemos. Ei, se eu não conseguir chegar, tu vem me buscar?"
"*risadinha* Fique calma que vai dar tudo certo."

Pausa.

Nunca me diga que está tudo bem ou que no final vai acabar tudo certo porque isso não funciona. NÃO.
NÃO FUNCIONA.
Quer um exemplo?
Desde o início do meu ensino médio me disseram que eu passaria no vestibular de primeira porque eu estava sendo bem preparada.
Acreditei.
E logo completaram com um "vai dar tudo certo!".
Pense seis segundos. Não é muito.
Exatamente.
Você acaba de se contradizer.

Continua.

O policial filho duma puta me diz isso no telefone. As minhas unhas já estavam mais do que maltratas com a minha salíva, línguas e dentes e o cara me fala isso lá pela meia noite passada.
Um dia me disseram que a esperança é a última que morre.
Com o tempo de estrada que já tínhamos percorrido, ela seria a última a morrer mesmo.
Porque eu ainda estava viva.
Não sei como. Sabia que estava.
Percorremos a estrada que restava e depois de alguns 20 minutos ainda, chegamos na minha cidadezinha.
Boa, dá pra se viver.
"Porto Alegre me doi." - Lala cantarolou.
E como doi.
Ao menos, doeu pra chegar.
Zona Norte.
Protásio Alves.
Ary Tarragô.
Rua dos fundos.
Não, a Ary Tarragô não é a rua dos fundos. Esse é só meu caminho mental, mesmo.
O resto você descobre por sí mesmo.
Pode vir aqui, porque aqui tem bolinho de queijo e bauru.
Não é daqui, é da Caverna do Ratão mesmo.
Anos de tradição e qualidade, de acordo com o slogan.
Ganhei um copo.
Cinco pila o cacete.
Retiro-me aqui depois desse longo post, que tá quase parecendo a minha viagem: eternas três horas escrevendo...
e escrevend...
e escreven...
e escreve...
e escrev...
e escre...
e escr...
e esc...
e es...
e e.