Finalmente: atendimentos e despedidas no telefone.
Sou campeã de tais fenômenos.
Assim, eu simplesmente odeio telefone. É pior que o bicho papão.
Dá medo olhar aquele aparelho comprido, alguns ainda com antena, outros não. Cheio de botões feito um celular, o botão de liga é verdinho e o de desliga é vermelho.
Números e mais números. E daqui a pouco ele cantarola aquele toque polifônico irritante e que infelizmente você tem que atender.
Vai que é urgência - afinal, seus pais sempre lhe ensinaram assim.
Eu ainda não sei com que objetivo eu tô escrevendo isso.
Ok, na verdade eu tinha um objetivo, mas eu deixei ele pra trás. Assim como muitas coisas na vida que você também vai deixar.
E eu tô aqui perdendo meu tempo porque eu to sem sono. A porca gorda aqui foi dormir às 13:30 e colocou o celular pra despertar às 14:30, e acordou às 17:15. Com a cara inchada, já diria um professor meu.
Só um lembrete: eu AMO abacate com todas as minhas forças.
Prosseguimos, então, primeiramente com três tipos de atendimentos mais comuns:
- "Alô? Muuuito bom dia! Aqui quem fala é..."
Educados: sempre tem um maldito desses que enche o teu ser/espírito. Não sei se de amor ou de ódio.
Amor porque... bom, é sempre muito tri receber um bom dia, por mais que tu não conheça a pessoa. Já recebi bom dia, boa tarde e boa noite de desconhecidos (e não era um vendedor) e me senti o máximo. Parece que é conhecido (de anos), embora não seja.
Ódio porque o teu dia foi uma merda, tu fez tudo errado, se atrasou pro encontro, esqueceu o que tinha de levar e ainda não pagou o que faltava. Você está devendo desde a semana retrasada. E aí alguém vem com aquela frase ali, como se o teu dia realmente estivesse sendo bom. Ou como se a pessoa do telefone quisesse invejar porque o dia dela foi espetacular, do contrário do teu que não chegou nem perto de um espetáculo. Só se for de palhaçada.
- "Alô? Por gentileza, eu gostaria de falar com a responsável pela conta do aparelho tal. Ela se encontra?"
Telemarketing: eles não gostam de fazer esse serviço e você muito menos de recebê-lo.
Assim, eu mandei um currículo pra isso aí, como se eu realmente fosse gostar (já que odeio falar ao telefone). O problema não é o trabalho, é medo do aparelho mesmo. Ok, mentira, mais tarde eu falo realmente qual o problema. Mas eu adoraria bater um papo com alguém que eu ligasse lá do serviço: primeiro porque, não sei como, o pessoal reconhece a minha voz de longe *ironia* e segundo... colocar o papo em dia é saudável!
"Por gentileza, eu gostaria de falar com..."
"É tu, cara?"
"Sim! Tô trabalhando em Telemarketing... foi o que sobrou pra mim. E tu? Foi na festa que teve no sábado do nosso amigão lá?"
"Ah... sim! Neeem te preocupa: não perdeu nada... o cara tá tri bem de vida e tava lá, se gabando pros outros..."
"Não acredito... bem tipinho dele mesmo, né?"
- "Alô? Eu gostaria de falar com a -PESSOA DE NOME INCOMUM-. Como ela não tá? O telefone não é 33696969? Ué, mas ela me deu esse número. Foi engano, tchau."
Engano: todos cometem, mas nem sempre se dão conta que o engano fora do simples errar de número na hora da discagem afobada.
Como eu tenho pavor de telefone, difícil eu ligar errado. É claro que sempre tem uma primeira vez... ao menos, antes de desligar, pedi muitas desculpas.
Tentei de novo e deu certo.
Eu tinha trocado um 6 por um 9.
Aliás, sugestivo o telefone do exemplo, não?
E não tentem...
E agora apresentamos os três tipos mais comuns de despedidas no telefone:
- "Pô cara, mas é isso aí, tenta fazer aquilo que eu te falei. Não. Sim, sim, isso mesmo. Pega a rua tal, entra na terceira casa e depois de lá tu pode pegar o ônibus tal. Não, não tem uma parada na frente, tu tem que caminhar no mínimo uns 2 quilômetros... ah! Para! Não reclama!...iiiih, já vai? Mas você ainda nem me contou aquilo. Deixar para amanhã? Putz, amanhã não sei se vai dar, me conta agora, bem rapidinho... é, eu tenho aquele curso e depois eu chego em casa e tenho a tarde livr.. ah, não, eu tenho médico. Mas o que aconteceu? Bá...que péssima. Ah, sim, claro...você tá indo dormir... mas tu entendeu o caminho? É bem simples né... ô, espera. Não desliga ainda. Assim, quando tu chegar na esquina, me dá um toque que eu levo o celular pra aula e deixo no silencioso, mas sempre tô com ele no bolso vendo se tem mensagem ou se tá perto do horário de ir pra casa. O quê? Não entendi. Ah, eu seeeei. Relaxa cara, você tá muito estressado. A noite é uma criança. Já tentou fazer acunpultura? Dizem que é muito bom, dá uns estralinhos na coluna quando pega a agulha. Ah, sei...tem que acordar cedo. Beleza. Até a próxima, mas...hein, sério, se precisar me liga mesmo, estou a disposição. Tchaaaaaau. Fica bem. Terceira casa, viu?"
NUNCA-DESLIGA: Sinceramente? Cansei de escrever tudo isso seguido como se fosse uma frasezona só. Esse é o cara que se pudesse investir naquele Plano Infinity da TIM e pagar cinquenta centavos a ligação pra falar eternidades, ele falaria. Tem assunto de sooooobra, normalmente é uma pessoa bem -e bota BEM- informada (ah, esqueci de que pode ser também informada de uma cultura meramente inútil).
- "AAAAH NÃO, MÔR. Desliga tu primeiro. Ai, eu não gosto porque daí parece que eu to desligando na tua cara. Vamos fazer o seguinte então, bebê: no três, tá? Um...dois...três! Beeeijo! Ai, tu nunca esquece disso né? Tá bom, tá bom, eu vou fazer de novo pra ti. Mas tem que comer tudiiiinho pra ganhar muito mais! Eu sei que você gosta, meu lindinho. Também te amo. No três, de novo? Ah, você faz eu me perder. Contigo eu tenho vontade de contar até mil (nota: BREGA.)! Um...dois...ah! como você é engraçadinho, né? Depois eu acho até que dá vontade de desligar na cara mesmo, bobão. Para com isso, amanhã a gente resolve, temos tempo. Foi? Um... dois... três! Tchau! Te amo muito, não esquece! Beijão! Beijão na boca! Seu lindo! Diz tchau logo! Tá! Tchau! Beijo! Boa noite! Te amo também! Tchaaaaau..."
APAIXONADO-RETARDADO: Nada contra, porque até eu tenho essa mania abobada. Só que é muito engraçado que a gente fala tuuuudo isso e, no final, era só pra gente desligar o telefone. Um tchau é suficiente. E essa contagem idiota até o três quase nunca funciona (não comigo!).
Nós tentamos nos enrolar...enrolar a pessoa do outro lado da linha... prolongando o máximo a despedida...
e conseguimos, né?
- "Então faz isso dessa forma, talvez encontre o que tu queira. Não, eu disse pra ela pegar dois, um pra mim e pra você, mas não sei se ela vai conseguir. É difícil... mas pode dar. Vamos torcer que sim... E se tu já tiver um, me avisa antes. (tu, tu, tu, tu....)"
DESLIGA-NA-CARA: Só pra caso alguém não tenha entendido, os tu-tu-tu's entre parênteses significa a pessoa desligando o aparelho de telefone.
Geeente, isso é um problemão sério! O meu pai sofre disso, é a coisa mais triste que poderia ter conhecido de mania dos meus pais. Tu tá alí, falando com a pessoa numa boa e de repente tu crente de que caiu a ligação porque tava chovendo lá ou qualquer coisa do gênero...mas nããão. A pessoa já falou tudo o que tinha pra falar e clica na porcaria do botão vermelho apavorada, porque não sabe dizer um tchau decentemente.
Quem não é acostumado com esse tipo, sempre acha que é falta de educação...
Acontece.
Cara, telefone é uma incógnita.
Aliás...
O problema citado na parte do Telemarketing é que eu odeio ficar sem assunto no telefone. E pessoalmente também. Bate um pavor tremendo, vontade de sair correndo e gritar qualquer coisa para que a pessoa responda. É o mesmo que fazer uma pergunta, sem ela ser respondida. É algo tipo... meio que... no vácuo, entende?
O pior mesmo é quando tu repete a pergunta... e continua aquele silêncio constrangedor, sabe?
Não que eu já não tenha feito o mesmo com uma pessoa, às vezes dá vergonha de responder, sei lá, mas ao menos precisamos de uma resposta convicta pra termos certeza de que a pessoa ainda se encontra na linha, né??
...ei.
Alô?
sábado, 19 de março de 2011
sexta-feira, 18 de março de 2011
A sweet vision...
Quadro da situação:
O paciente encontra-se em estado grave.
Olheiras profundas de uma provável noite maldormida.
O estômago parece cheio. A boca está suja de, além de sangue, muito vômito de uma comida suspeita (por muitos).
Há evidências claras de tentativas de suicídio com objetos pontiagudos como faca, estilete ou até mesmo uma furadeira.
Recados espalhados pelo quarto, em folhas de ofício rabiscadas, alertando seriamente: "eu tentei, mas não deu certo dessa vez, assim como na outra e o serão nas próximas...".
...
O real quadro da situação?
Uma mesa grande e retangular.
Uma pessoa ferida, com uma faca na mão recém saída de batalha, de um lado da mesa.
Curativos do outro lado da mesa.
Pessoa se esticando ao máximo pra alcançar os curativos para amenizar o ferimento inicial.
Faca da mão da pessoa é a tal famosa "faca-de-dois-gumes".
Logo, quanto maior o esforço de aproximação...
...maior o sofrimento.
Uma boa tarde a todos.
Ah, talvez nem tão boa assim! mas olhe que maldito post que de início já me vem com gente morrendo, gente triste, gente que precisa de outras gentes.
Tem mais essa chuva dos diabos que não para de cair. Ao menos pra alguma coisa serve: lembrando lágrimas derramadas ou algo do tipo.
Muito bem, vocês são sobreviventes de mais uma sangrenta (ou chorosa) guerra. E não se preocupe, os que ficaram no caminho não foram em vão. Ou foram, já que ninguém realmente lembra o nome de nenhum.
Pessoa número um.
Pessoa número dois.
Pessoa número três.
Um trio é o suficiente.
A vida não vai permitir além disso.
Chega de planos mirabolantes... aqui, é proibido fumar.
Largue o seu cigarro ex-tragado e assista à entrevista decentemente, sem se preocupar com alguma fumaça ou cheiro de roupa velha.
O reporter chega de fininho, como quem não quer nada mas louco pra publicar a porra de uma reportagem gigante no jornal:
"O que você verdadeiramente quer?"
"Sei lá. No momento, eu gostaria de um doce. Açúcar, assim (movimenta as mãos). Pra adocicar a minha vida."
O repórter apresenta uma bandeja com uma variedade imensa de doces.
"E então? Poderia responder à pergunta?"
"Obrigad*. (comendo o doce, respirando fundo, responde) Primeiramente, gostaria de dizer alô para a minha querida mamãe, já um pouco velha, mas acho que ainda me escuta e entende. Oi mamãe. E para o meu paizão também, graaaande pai, sempre me ajudando em tudo, coroa de bom coração. Eaí pai."
O repórter, já impaciente, troca o microfone de mão, enquanto o camera-man balbucia algumas palavras sem sentido, resmungando.
"O que eu verdadeiramente quero, ninguém verdadeiramente pode me dar..."
O repórter muito curioso, impaciente e já excitado com a resposta, procura explorar o máximo do psicológico da pessoa.
"E o que seria isso que ninguém pode lhe dar?"
"...e ninguém 'mentirosamente' pode me dar, também. Tenho um comentário a fazer, antes de mais nada: as pessoas têm se tornado muito previsíveis. Eu já li isso em algum lugar, mas eu faço questão de eu mesm* dizer. Veja bem, eu não quero te tirar para diário ou caderno de desabafo, mas eu tô precisando...cê me entende?"
O repórter pega um banco confortável e se senta, olhando o camera-man ainda em pé. Esse último faz o mesmo, acompanhando e sentando ao lado, ligeiramente fazendo um rápido BIP! com a câmera, desligando-a.
"Porra, bem que podia ter um chimarrão aqui, né? Mas agora não importa... antes que me perguntem: previsibilidade é uma coisa muito fácil de deduzir. Eu não gostaria de parecer nenhum super-heroi contando esse tipo de coisa, mas é que isso tem me assustado muito. Imagina você deduzir que certo horário, logo que você fez tal coisa, você deduz que vai morrer, porque tá na cara, e aí morre mesmo?"
"Talvez já fosse a hora..."
"...QUE HORA O QUE! Eu tenho muitos anos de vida ainda. Mais que felino e menos que Deus, se o acreditam em ambos os substantivos."
"É, É!" Concorda o camera-man, achando que qualquer palavra dita pela pessoa pudesse fazer alguma lógica.
"É claro que eu deduzi que eu não aguentaria e que eu chegaria a um fim trágico, mas não imaginei que fosse a tanto (passa os dedos suavemente pelo pescoço, sentindo o curativo de hospital)... Nunca brinquei com esse tipo de coisa. Aliás, isso não é brincadeira, eu sei. Eu só sei que é um desejo incontrolável. Já me diziam nos programas antigos de televisão: crianças, não tentem isso em casa. Desculpa mamãe, desculpa pai.
O camera-man já está lacrimejando, um homem batalhador, sensível. Nunca havia dado um stop em seu trabalho para perceber o que realmente acontece por fora das câmeras. E agora estava alí, ouvindo o depoimento de um suicída, não sabia se admirava ou se temia.
O repórter está muito pensativo, cada palavra ele selecionaria para depois passar pro jornalista que colocaria a tão esperada entrevista e tudo no jornal, tim-tim por tim-tim.
"Mas então... qual foi o motivo de tudo isso?"
"Não é só um motivo. Uma pessoa nunca tenta essas coisas graças a um motivo só. Imagina, se fosse assim, já teria muita gente se atirando pelas janelas, se cortando, explodindo a própria casa a cada segundo. Quantos problemas que as pessoas não enfrentam no dia a dia e ainda assim estão vivas, sem pular janelas, sem um corte visível ou marca e ainda morando na sua casa? É como uma bola de neve... quando ela começa a surgir, vai arrastando umonte de coisa e leva tudo. E o efeito é cumulativo. Nesse caso, não começou com uma bola de neve pequenininha e muito menos foi crescendo gradativamente. O problema já veio grande. Tipo uma pedra, um pedregulho (e as mãos faziam movimentos de como se fosse a pedra mais gigante do universo). E eu não consegui, infelizmente, tirar do meu caminho. Admito que tentei até chutar, mas machuquei o pé. E daí que veio o meu primeiro machucado. Quando eu fiquei de um lado da mesa, tentando alcançar o outro para me curar desse primeiro ferimento, já havia batalhado demais. Eu estava desgastad*. Cansad*. Ainda assim, com persistência e teimosia, é claro, porque as pessoas nunca acreditaram em mim nesse tipo de coisa, forcei a barra, querendo ir até o final..."
O repórter suspira, olhando o outro curativo gigante perto da costela da pessoa, sentindo a faca entrando vagarosamente... ele volta o olhar rapidamente à pessoa, sacudindo a cabeça e ouvindo a história.
"...Mas o outro lado da mesa também não me ajudou. O caminho que eu tive que percorrer com o braço, e ele não é tão curtinho não, ó (estica os dois braços) foi longo demais. Eu deixei escapar oportunidades reais, para me iludir com um pequeno curativo que tinha de fazer porque machucava. Minto, incomodava. Sabe aquela coceira de sempre que você tem e nunca consegue se livrar... e parece que, quanto menos você pensa nela, mais ela coça? Era mais ou menos isso, mas era dor. Vocês já devem saber soletrar. Dê-ô-érre. Dolorido, assim mesmo. E sangrou, nossa. Eu nunca tinha visto tanto sangue na minha vida. Acho que sou um pouco masoquista, mas não contem para ninguém, evitem botar isso no jornal... (risada tímida)
Só conto tudo isso pra vocês porque... bom, porque faz parte da vida. Tem gente que passa por coisa pior, que talvez não conte por não ter condições ou por não admitir lutar por aquilo que quer...(faz uma pausa longa)
...por mais impossível que isso pareça."
O repórter se levanta, tão quieto quanto o camera-man que se levanta também, e ambos vão para o centro de negócios.
"Uma última coisa! Obrigad* pelo doce, estava maravilhoso. As pessoas deveriam ingerir mais glicose quando esse tipo de situação acontecesse com elas. Adocica mesmo a vida(sorrindo)!"
Lá no centro de negócios, as pessoas trabalhavam incessavelmente. Era uma correria louca para todo o lado, telefones tocando sem parar, documentos voltavam, papéis eram rasgados, nomes eram gritados pra todo o lado em busca de mais materiais, de mais dinheiro, de um capitalismo talvez não tão feliz assim.
O repórter olha para o câmera-man, já desanimado ao sentir aquela euforia das pessoas em relação aos negócios e exausto com o mesmo ambiente diário para trabalho.
Em seguida, o jornalista se aproxima com um bloco de papel na mão esquerda e uma caneta preta na mão direita.
"E aí, novidades? Me conta, como foi. Tudinho.(abre o bloco e tira a tampa da caneta)"
"Eu não fiz entrevista alguma...foi mal aí. Não deu tempo, a tarde passou rápida e a pessoa não teve condições de responder. Sabe como é que é, tem algumas pessoas que preferem não admitir lutar pelo que desejam, e aí deu nisso."
"Hummm (suspeitando). Tudo bem. Só que lhe digo uma coisa...se você não conseguir uma última entrevista, você está fora daqui. Porque tem um lá que conseguiu hoje uma muito boa, algo com sexo e tal, isso chama a atenção. Morte ou suicídio também. Trata de dar um jeito aí. Tchau."
O jornalista dá meia volta e retorna ao seu escritório, pensando em outros planos para escrever alguma notícia interessante.
O camera-man fica impressionado com a reação deste, afinal, a dupla era uma das melhores que trabalhava ali sempre se esforçando e muito empenhada, mas dessa vez, somente nessa situação, chegou ao ponto do camera-man ouvir o BIP! da câmera, ouvir o chefe reclamar e quem sabe quando não chegasse em casa, ligasse a TV para ouvir mais desgraças no mundo.
E o repórter... bom, ele foi quem mais aprendeu com a história. Ele tirou suas próprias conclusões, mas não deu meia volta para voltar a trabalhar, muito menos queria voltar pra casa para ouvir a mulher reclamar que hoje não viu nenhuma entrevista na TV dele...
Ele queria muito mais.
Ele andou exatamente duas quadras depois do centro de negócios e entrou na segunda casa de coloração verde à esquerda do orelhão.
Era uma doceria.
O paciente encontra-se em estado grave.
Olheiras profundas de uma provável noite maldormida.
O estômago parece cheio. A boca está suja de, além de sangue, muito vômito de uma comida suspeita (por muitos).
Há evidências claras de tentativas de suicídio com objetos pontiagudos como faca, estilete ou até mesmo uma furadeira.
Recados espalhados pelo quarto, em folhas de ofício rabiscadas, alertando seriamente: "eu tentei, mas não deu certo dessa vez, assim como na outra e o serão nas próximas...".
...
O real quadro da situação?
Uma mesa grande e retangular.
Uma pessoa ferida, com uma faca na mão recém saída de batalha, de um lado da mesa.
Curativos do outro lado da mesa.
Pessoa se esticando ao máximo pra alcançar os curativos para amenizar o ferimento inicial.
Faca da mão da pessoa é a tal famosa "faca-de-dois-gumes".
Logo, quanto maior o esforço de aproximação...
...maior o sofrimento.
Uma boa tarde a todos.
Ah, talvez nem tão boa assim! mas olhe que maldito post que de início já me vem com gente morrendo, gente triste, gente que precisa de outras gentes.
Tem mais essa chuva dos diabos que não para de cair. Ao menos pra alguma coisa serve: lembrando lágrimas derramadas ou algo do tipo.
Muito bem, vocês são sobreviventes de mais uma sangrenta (ou chorosa) guerra. E não se preocupe, os que ficaram no caminho não foram em vão. Ou foram, já que ninguém realmente lembra o nome de nenhum.
Pessoa número um.
Pessoa número dois.
Pessoa número três.
Um trio é o suficiente.
A vida não vai permitir além disso.
Chega de planos mirabolantes... aqui, é proibido fumar.
Largue o seu cigarro ex-tragado e assista à entrevista decentemente, sem se preocupar com alguma fumaça ou cheiro de roupa velha.
O reporter chega de fininho, como quem não quer nada mas louco pra publicar a porra de uma reportagem gigante no jornal:
"O que você verdadeiramente quer?"
"Sei lá. No momento, eu gostaria de um doce. Açúcar, assim (movimenta as mãos). Pra adocicar a minha vida."
O repórter apresenta uma bandeja com uma variedade imensa de doces.
"E então? Poderia responder à pergunta?"
"Obrigad*. (comendo o doce, respirando fundo, responde) Primeiramente, gostaria de dizer alô para a minha querida mamãe, já um pouco velha, mas acho que ainda me escuta e entende. Oi mamãe. E para o meu paizão também, graaaande pai, sempre me ajudando em tudo, coroa de bom coração. Eaí pai."
O repórter, já impaciente, troca o microfone de mão, enquanto o camera-man balbucia algumas palavras sem sentido, resmungando.
"O que eu verdadeiramente quero, ninguém verdadeiramente pode me dar..."
O repórter muito curioso, impaciente e já excitado com a resposta, procura explorar o máximo do psicológico da pessoa.
"E o que seria isso que ninguém pode lhe dar?"
"...e ninguém 'mentirosamente' pode me dar, também. Tenho um comentário a fazer, antes de mais nada: as pessoas têm se tornado muito previsíveis. Eu já li isso em algum lugar, mas eu faço questão de eu mesm* dizer. Veja bem, eu não quero te tirar para diário ou caderno de desabafo, mas eu tô precisando...cê me entende?"
O repórter pega um banco confortável e se senta, olhando o camera-man ainda em pé. Esse último faz o mesmo, acompanhando e sentando ao lado, ligeiramente fazendo um rápido BIP! com a câmera, desligando-a.
"Porra, bem que podia ter um chimarrão aqui, né? Mas agora não importa... antes que me perguntem: previsibilidade é uma coisa muito fácil de deduzir. Eu não gostaria de parecer nenhum super-heroi contando esse tipo de coisa, mas é que isso tem me assustado muito. Imagina você deduzir que certo horário, logo que você fez tal coisa, você deduz que vai morrer, porque tá na cara, e aí morre mesmo?"
"Talvez já fosse a hora..."
"...QUE HORA O QUE! Eu tenho muitos anos de vida ainda. Mais que felino e menos que Deus, se o acreditam em ambos os substantivos."
"É, É!" Concorda o camera-man, achando que qualquer palavra dita pela pessoa pudesse fazer alguma lógica.
"É claro que eu deduzi que eu não aguentaria e que eu chegaria a um fim trágico, mas não imaginei que fosse a tanto (passa os dedos suavemente pelo pescoço, sentindo o curativo de hospital)... Nunca brinquei com esse tipo de coisa. Aliás, isso não é brincadeira, eu sei. Eu só sei que é um desejo incontrolável. Já me diziam nos programas antigos de televisão: crianças, não tentem isso em casa. Desculpa mamãe, desculpa pai.
O camera-man já está lacrimejando, um homem batalhador, sensível. Nunca havia dado um stop em seu trabalho para perceber o que realmente acontece por fora das câmeras. E agora estava alí, ouvindo o depoimento de um suicída, não sabia se admirava ou se temia.
O repórter está muito pensativo, cada palavra ele selecionaria para depois passar pro jornalista que colocaria a tão esperada entrevista e tudo no jornal, tim-tim por tim-tim.
"Mas então... qual foi o motivo de tudo isso?"
"Não é só um motivo. Uma pessoa nunca tenta essas coisas graças a um motivo só. Imagina, se fosse assim, já teria muita gente se atirando pelas janelas, se cortando, explodindo a própria casa a cada segundo. Quantos problemas que as pessoas não enfrentam no dia a dia e ainda assim estão vivas, sem pular janelas, sem um corte visível ou marca e ainda morando na sua casa? É como uma bola de neve... quando ela começa a surgir, vai arrastando umonte de coisa e leva tudo. E o efeito é cumulativo. Nesse caso, não começou com uma bola de neve pequenininha e muito menos foi crescendo gradativamente. O problema já veio grande. Tipo uma pedra, um pedregulho (e as mãos faziam movimentos de como se fosse a pedra mais gigante do universo). E eu não consegui, infelizmente, tirar do meu caminho. Admito que tentei até chutar, mas machuquei o pé. E daí que veio o meu primeiro machucado. Quando eu fiquei de um lado da mesa, tentando alcançar o outro para me curar desse primeiro ferimento, já havia batalhado demais. Eu estava desgastad*. Cansad*. Ainda assim, com persistência e teimosia, é claro, porque as pessoas nunca acreditaram em mim nesse tipo de coisa, forcei a barra, querendo ir até o final..."
O repórter suspira, olhando o outro curativo gigante perto da costela da pessoa, sentindo a faca entrando vagarosamente... ele volta o olhar rapidamente à pessoa, sacudindo a cabeça e ouvindo a história.
"...Mas o outro lado da mesa também não me ajudou. O caminho que eu tive que percorrer com o braço, e ele não é tão curtinho não, ó (estica os dois braços) foi longo demais. Eu deixei escapar oportunidades reais, para me iludir com um pequeno curativo que tinha de fazer porque machucava. Minto, incomodava. Sabe aquela coceira de sempre que você tem e nunca consegue se livrar... e parece que, quanto menos você pensa nela, mais ela coça? Era mais ou menos isso, mas era dor. Vocês já devem saber soletrar. Dê-ô-érre. Dolorido, assim mesmo. E sangrou, nossa. Eu nunca tinha visto tanto sangue na minha vida. Acho que sou um pouco masoquista, mas não contem para ninguém, evitem botar isso no jornal... (risada tímida)
Só conto tudo isso pra vocês porque... bom, porque faz parte da vida. Tem gente que passa por coisa pior, que talvez não conte por não ter condições ou por não admitir lutar por aquilo que quer...(faz uma pausa longa)
...por mais impossível que isso pareça."
O repórter se levanta, tão quieto quanto o camera-man que se levanta também, e ambos vão para o centro de negócios.
"Uma última coisa! Obrigad* pelo doce, estava maravilhoso. As pessoas deveriam ingerir mais glicose quando esse tipo de situação acontecesse com elas. Adocica mesmo a vida(sorrindo)!"
Lá no centro de negócios, as pessoas trabalhavam incessavelmente. Era uma correria louca para todo o lado, telefones tocando sem parar, documentos voltavam, papéis eram rasgados, nomes eram gritados pra todo o lado em busca de mais materiais, de mais dinheiro, de um capitalismo talvez não tão feliz assim.
O repórter olha para o câmera-man, já desanimado ao sentir aquela euforia das pessoas em relação aos negócios e exausto com o mesmo ambiente diário para trabalho.
Em seguida, o jornalista se aproxima com um bloco de papel na mão esquerda e uma caneta preta na mão direita.
"E aí, novidades? Me conta, como foi. Tudinho.(abre o bloco e tira a tampa da caneta)"
"Eu não fiz entrevista alguma...foi mal aí. Não deu tempo, a tarde passou rápida e a pessoa não teve condições de responder. Sabe como é que é, tem algumas pessoas que preferem não admitir lutar pelo que desejam, e aí deu nisso."
"Hummm (suspeitando). Tudo bem. Só que lhe digo uma coisa...se você não conseguir uma última entrevista, você está fora daqui. Porque tem um lá que conseguiu hoje uma muito boa, algo com sexo e tal, isso chama a atenção. Morte ou suicídio também. Trata de dar um jeito aí. Tchau."
O jornalista dá meia volta e retorna ao seu escritório, pensando em outros planos para escrever alguma notícia interessante.
O camera-man fica impressionado com a reação deste, afinal, a dupla era uma das melhores que trabalhava ali sempre se esforçando e muito empenhada, mas dessa vez, somente nessa situação, chegou ao ponto do camera-man ouvir o BIP! da câmera, ouvir o chefe reclamar e quem sabe quando não chegasse em casa, ligasse a TV para ouvir mais desgraças no mundo.
E o repórter... bom, ele foi quem mais aprendeu com a história. Ele tirou suas próprias conclusões, mas não deu meia volta para voltar a trabalhar, muito menos queria voltar pra casa para ouvir a mulher reclamar que hoje não viu nenhuma entrevista na TV dele...
Ele queria muito mais.
Ele andou exatamente duas quadras depois do centro de negócios e entrou na segunda casa de coloração verde à esquerda do orelhão.
Era uma doceria.
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