"Sem se dar conta, já era tarde: lágrimas corriam pelo rosto tão jovem, cheio de inocência. A maquiagem borrava e espalhava-se por toda a bochecha. Manchas negras. De ódio, sem pudor.
Ao que parecia, a garota provavelmente se perguntava o porquê de tudo aquilo. Nunca entendera o que era o sofrimento e porque ele machucava tanto. Era uma dor aguda, e talvez nem tão forte... mas incomodava. Ela poderia ser mais persistente, rasgar seu peito em dois, quatro, dez ou mil pedaços e não gostar de paz. Afinal, a paz é para os fracos, sussurrava a dor para a garota já sem tanta vida assim.
Certa manhã, ela acordara cansada, mais que o habitual. Havia recebido uma surra por todo o seu corpo, permanecia quase imóvel. Dor incompreensível. E depois de tantos anos, ela realmente achava que o sofrimento simplesmente esvaíra-se pelo céu. Diante o seu quintal, ajoelhou-se no meio deste, com o corpo adormecido, recebendo o sol radiante que banhava suas curvas delicadas. Tão lindo quanto um fax - deslizava desde a flor desenhada no calcanhar até os seios pequenos e arredondados. O seu rosto, infelizmente, o sol negou: não gostaria de iluminar uma expressão tristonha e cheia de ódio - era o que tinha se transformado - que não mudara no passado.
E ficou ali, rezando sabe-se lá para quem, desejando, pedindo, agradecendo ninguém sabe como... somente acreditava que seu pedido, um dia, pudesse ser realizado.
O tempo passou. É claro, o tempo sempre passa. Tic tac do relógio; incessável.
(...)
Dessa vez -acreditavam, ou ao menos diziam que -, era sério. O relacionamento estava de mal a pior e ninguém desejava a desgraça um para o outro. Ela tinha encontrado outra pessoa e ele sofreu muito, penou todos esses anos e seu castigo foi, nada mais nada menos, que superar todo o resto da sua vida sem ela.
Ela dizia eu volto para os seus braços , se você acreditar em mim.
Ele negava, ah injustiça!; porque deveria dar esse tempo e deixar ele passando por esse sufoco interminável?
O anjo nunca mais falou com ele, e o outro já havia esquecido. O anjo visitava os seus pensamentos - e não os braços dele, era muito longe! - que acordavam-no toda a noite e ele rezava, pedia para sei lá quem pudesse ajudá-lo a trazer o esquecimento.
O esquecimento era impossível. Ninguém nunca esquece uma pessoa, especialmente um anjo tão delicado quanto ela era.
E até que um dia ela retornou.
"Eu sou a única pessoa passageira que você conheceu. As outras pessoas vão entrar na sua vida e você vai lembrar dos momentos juntos, das alegrias e das tristezas... mas...e de mim?
Nem mesmo o abandono você um dia compreenderá, entenda apenas que ele fora necessário. Você amadureceu e, finalmente depois de tanto tempo, soube o que é o sofrimento.
Portanto, não queira ele nem para o seu pior inimigo: ele poderá ficar sem rumo, assim como aconteceu com você. É claro que para tudo, há uma recompensa digna..."
Sem terminar direito o discurso, o anjo fechou os olhos e pousou (que asas branquinhas!) nos braços dele, com o rosto iluminado pelo sol, (ir)radiando o mais belo e sincero sorriso."
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Eu gostei bastante desse "mini-conto" (porra, um conto já é pequeno...imagine o mini! Pois aí está, bem diante de seus olhos!).
Eu fico feliz e supercuriosa com esse papo de tu não saber quem é a pessoa do início, nem meio e fim. (Não lembro de ter aparecido no texto que, - questão de interpretação, hein? - a garota do início, era realmente o anjo do fim. E o cara então, nem se fala... mais desconhecido, impossível.)
Na verdade, era uma história que ainda estou planejando bem pra escrever (não pretendo publicar, até porque é pra ser breve)... mas o melhor de tudo é: é uma história real.
Entretanto, sem um fim.
Quem disse que os anjos não existem?
[Feliz Páscoa! ^^]