sexta-feira, 18 de março de 2011

A sweet vision...

Quadro da situação:
O paciente encontra-se em estado grave.
Olheiras profundas de uma provável noite maldormida.
O estômago parece cheio. A boca está suja de, além de sangue, muito vômito de uma comida suspeita (por muitos).
Há evidências claras de tentativas de suicídio com objetos pontiagudos como faca, estilete ou até mesmo uma furadeira.
Recados espalhados pelo quarto, em folhas de ofício rabiscadas, alertando seriamente: "eu tentei, mas não deu certo dessa vez, assim como na outra e o serão nas próximas...".
...
O real quadro da situação?
Uma mesa grande e retangular.
Uma pessoa ferida, com uma faca na mão recém saída de batalha, de um lado da mesa.
Curativos do outro lado da mesa.
Pessoa se esticando ao máximo pra alcançar os curativos para amenizar o ferimento inicial.
Faca da mão da pessoa é a tal famosa "faca-de-dois-gumes".
Logo, quanto maior o esforço de aproximação...
...maior o sofrimento.


Uma boa tarde a todos.
Ah, talvez nem tão boa assim! mas olhe que maldito post que de início já me vem com gente morrendo, gente triste, gente que precisa de outras gentes.
Tem mais essa chuva dos diabos que não para de cair. Ao menos pra alguma coisa serve: lembrando lágrimas derramadas ou algo do tipo.
Muito bem, vocês são sobreviventes de mais uma sangrenta (ou chorosa) guerra. E não se preocupe, os que ficaram no caminho não foram em vão. Ou foram, já que ninguém realmente lembra o nome de nenhum.
Pessoa número um.
Pessoa número dois.
Pessoa número três.
Um trio é o suficiente.
A vida não vai permitir além disso.
Chega de planos mirabolantes... aqui, é proibido fumar.
Largue o seu cigarro ex-tragado e assista à entrevista decentemente, sem se preocupar com alguma fumaça ou cheiro de roupa velha.

O reporter chega de fininho, como quem não quer nada mas louco pra publicar a porra de uma reportagem gigante no jornal:

"O que você verdadeiramente quer?"

"Sei lá. No momento, eu gostaria de um doce. Açúcar, assim (movimenta as mãos). Pra adocicar a minha vida."

O repórter apresenta uma bandeja com uma variedade imensa de doces.

"E então? Poderia responder à pergunta?"

"Obrigad*. (comendo o doce, respirando fundo, responde) Primeiramente, gostaria de dizer alô para a minha querida mamãe, já um pouco velha, mas acho que ainda me escuta e entende. Oi mamãe. E para o meu paizão também, graaaande pai, sempre me ajudando em tudo, coroa de bom coração. Eaí pai."

O repórter, já impaciente, troca o microfone de mão, enquanto o camera-man balbucia algumas palavras sem sentido, resmungando.

"O que eu verdadeiramente quero, ninguém verdadeiramente pode me dar..."

O repórter muito curioso, impaciente e já excitado com a resposta, procura explorar o máximo do psicológico da pessoa.

"E o que seria isso que ninguém pode lhe dar?"

"...e ninguém 'mentirosamente' pode me dar, também. Tenho um comentário a fazer, antes de mais nada: as pessoas têm se tornado muito previsíveis. Eu já li isso em algum lugar, mas eu faço questão de eu mesm* dizer. Veja bem, eu não quero te tirar para diário ou caderno de desabafo, mas eu tô precisando...cê me entende?"

O repórter pega um banco confortável e se senta, olhando o camera-man ainda em pé. Esse último faz o mesmo, acompanhando e sentando ao lado, ligeiramente fazendo um rápido BIP! com a câmera, desligando-a.

"Porra, bem que podia ter um chimarrão aqui, né? Mas agora não importa... antes que me perguntem: previsibilidade é uma coisa muito fácil de deduzir. Eu não gostaria de parecer nenhum super-heroi contando esse tipo de coisa, mas é que isso tem me assustado muito. Imagina você deduzir que certo horário, logo que você fez tal coisa, você deduz que vai morrer, porque tá na cara, e aí morre mesmo?"

"Talvez já fosse a hora..."

"...QUE HORA O QUE! Eu tenho muitos anos de vida ainda. Mais que felino e menos que Deus, se o acreditam em ambos os substantivos."

"É, É!" Concorda o camera-man, achando que qualquer palavra dita pela pessoa pudesse fazer alguma lógica.

"É claro que eu deduzi que eu não aguentaria e que eu chegaria a um fim trágico, mas não imaginei que fosse a tanto (passa os dedos suavemente pelo pescoço, sentindo o curativo de hospital)... Nunca brinquei com esse tipo de coisa. Aliás, isso não é brincadeira, eu sei. Eu só sei que é um desejo incontrolável. Já me diziam nos programas antigos de televisão: crianças, não tentem isso em casa. Desculpa mamãe, desculpa pai.

O camera-man já está lacrimejando, um homem batalhador, sensível. Nunca havia dado um stop em seu trabalho para perceber o que realmente acontece por fora das câmeras. E agora estava alí, ouvindo o depoimento de um suicída, não sabia se admirava ou se temia.
O repórter está muito pensativo, cada palavra ele selecionaria para depois passar pro jornalista que colocaria a tão esperada entrevista e tudo no jornal, tim-tim por tim-tim.

"Mas então... qual foi o motivo de tudo isso?"

"Não é só um motivo. Uma pessoa nunca tenta essas coisas graças a um motivo só. Imagina, se fosse assim, já teria muita gente se atirando pelas janelas, se cortando, explodindo a própria casa a cada segundo. Quantos problemas que as pessoas não enfrentam no dia a dia e ainda assim estão vivas, sem pular janelas, sem um corte visível ou marca e ainda morando na sua casa? É como uma bola de neve... quando ela começa a surgir, vai arrastando umonte de coisa e leva tudo. E o efeito é cumulativo. Nesse caso, não começou com uma bola de neve pequenininha e muito menos foi crescendo gradativamente. O problema já veio grande. Tipo uma pedra, um pedregulho (e as mãos faziam movimentos de como se fosse a pedra mais gigante do universo). E eu não consegui, infelizmente, tirar do meu caminho. Admito que tentei até chutar, mas machuquei o pé. E daí que veio o meu primeiro machucado. Quando eu fiquei de um lado da mesa, tentando alcançar o outro para me curar desse primeiro ferimento, já havia batalhado demais. Eu estava desgastad*. Cansad*. Ainda assim, com persistência e teimosia, é claro, porque as pessoas nunca acreditaram em mim nesse tipo de coisa, forcei a barra, querendo ir até o final..."

O repórter suspira, olhando o outro curativo gigante perto da costela da pessoa, sentindo a faca entrando vagarosamente... ele volta o olhar rapidamente à pessoa, sacudindo a cabeça e ouvindo a história.

"...Mas o outro lado da mesa também não me ajudou. O caminho que eu tive que percorrer com o braço, e ele não é tão curtinho não, ó (estica os dois braços) foi longo demais. Eu deixei escapar oportunidades reais, para me iludir com um pequeno curativo que tinha de fazer porque machucava. Minto, incomodava. Sabe aquela coceira de sempre que você tem e nunca consegue se livrar... e parece que, quanto menos você pensa nela, mais ela coça? Era mais ou menos isso, mas era dor. Vocês já devem saber soletrar. Dê-ô-érre. Dolorido, assim mesmo. E sangrou, nossa. Eu nunca tinha visto tanto sangue na minha vida. Acho que sou um pouco masoquista, mas não contem para ninguém, evitem botar isso no jornal... (risada tímida)
Só conto tudo isso pra vocês porque... bom, porque faz parte da vida. Tem gente que passa por coisa pior, que talvez não conte por não ter condições ou por não admitir lutar por aquilo que quer...(faz uma pausa longa)
...por mais impossível que isso pareça."


O repórter se levanta, tão quieto quanto o camera-man que se levanta também, e ambos vão para o centro de negócios.

"Uma última coisa! Obrigad* pelo doce, estava maravilhoso. As pessoas deveriam ingerir mais glicose quando esse tipo de situação acontecesse com elas. Adocica mesmo a vida(sorrindo)!"

Lá no centro de negócios, as pessoas trabalhavam incessavelmente. Era uma correria louca para todo o lado, telefones tocando sem parar, documentos voltavam, papéis eram rasgados, nomes eram gritados pra todo o lado em busca de mais materiais, de mais dinheiro, de um capitalismo talvez não tão feliz assim.
O repórter olha para o câmera-man, já desanimado ao sentir aquela euforia das pessoas em relação aos negócios e exausto com o mesmo ambiente diário para trabalho.
Em seguida, o jornalista se aproxima com um bloco de papel na mão esquerda e uma caneta preta na mão direita.

"E aí, novidades? Me conta, como foi. Tudinho.(abre o bloco e tira a tampa da caneta)"

"Eu não fiz entrevista alguma...foi mal aí. Não deu tempo, a tarde passou rápida e a pessoa não teve condições de responder. Sabe como é que é, tem algumas pessoas que preferem não admitir lutar pelo que desejam, e aí deu nisso."

"Hummm (suspeitando). Tudo bem. Só que lhe digo uma coisa...se você não conseguir uma última entrevista, você está fora daqui. Porque tem um lá que conseguiu hoje uma muito boa, algo com sexo e tal, isso chama a atenção. Morte ou suicídio também. Trata de dar um jeito aí. Tchau."

O jornalista dá meia volta e retorna ao seu escritório, pensando em outros planos para escrever alguma notícia interessante.
O camera-man fica impressionado com a reação deste, afinal, a dupla era uma das melhores que trabalhava ali sempre se esforçando e muito empenhada, mas dessa vez, somente nessa situação, chegou ao ponto do camera-man ouvir o BIP! da câmera, ouvir o chefe reclamar e quem sabe quando não chegasse em casa, ligasse a TV para ouvir mais desgraças no mundo.
E o repórter... bom, ele foi quem mais aprendeu com a história. Ele tirou suas próprias conclusões, mas não deu meia volta para voltar a trabalhar, muito menos queria voltar pra casa para ouvir a mulher reclamar que hoje não viu nenhuma entrevista na TV dele...
Ele queria muito mais.
Ele andou exatamente duas quadras depois do centro de negócios e entrou na segunda casa de coloração verde à esquerda do orelhão.
Era uma doceria.

Um comentário:

  1. Nossa bibi... Algo extremamente tenso, emocionante, impactante e assombroso. Ou seja, do jeito que eu gosto. É amiga todos nós temos problemas que fazem parte de uma realidade que é diferente da que a gente enfrenta. Freud já diria que a realidade psíquica das pessoas é tão real quanto a realidade que ela vive. E que isso causa tanto impacto e histeria nela quanto essa realidade "real" por assim dizer. Acho que o que enfrentamos emocionalmente é algo tao intenso e profundo, algo tão forte e doloroso, muitas vezes, que fica dificil continuar respirando para alimentar isso. Mas sabemos ue não podemos desistir porque tudo isso faz parte de um amadurecimento que agora, não entendemos, mas quando vier algo melhor, lembraremos. Amiga, pessoas nunca nos deixam, elas apenas se vão por um tempo, se afastam um pouco. De alguma forma, se alguém está na nossa vida é porque esse alguém compõe uma parte importante dela naquele momento e deixará essa sua parte para todo o sempre na gente. Tudo é nós e nós somos uma parte do tudo. Tu nunca estará sozinha, uma vez que todos somos parte de ti. Eu te amo minha amiga, de verdade, tu ilumina, melhora e torna mais feliz o meu sorriso.

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